Terrena é o feminino de terreno: aquilo que se refere à terra, ao mundo material, à existência física, temporal e limitada. É a partir dessa condição que o projeto se constrói, propondo uma reflexão sobre a fotografia não como registro objetivo do real, mas como instrumento de imaginação e especulação de futuros. A série nasce dos grafismos naturais formados pelas diferentes cores das areias da praia do Katembe, em Moçambique, fotografadas de modo a eliminar referências diretas de escala, horizonte ou localização geográfica, suspendendo o reconhecimento imediato do lugar.
Terrena explora a abstração, ao isolar os fragmentos do território, as imagens deixam de funcionar como registros documentais e passam à se tornas um convite à interpretação. O solo transforma-se em linguagem visual, evocando paisagens imaginárias, mapas imprecisos e composições que transitam entre fotografia e pintura. Nesse processo, a imagem não informa, mas sugere; não descreve, mas provoca.
Com o deslocar da fotografia de sua função descritiva, Terrena se insere em uma longa tensão histórica do próprio meio. Desde seus primórdios, a fotografia foi associada à ideia de verdade e fidelidade ao real, sustentando seu uso científico, institucional e social como prova objetiva do mundo. Embora essa concepção tenha sido amplamente questionada por artistas e teóricos ao longo do tempo, ela permeia o imaginário coletivo, sobrevivendo como um resíduo cultural que atravessou gerações.
No contexto contemporâneo, essa relação entre imagem e realidade sofre um rompimento decisivo com o advento da inteligência artificial. A produção de imagens sem referente físico rompe o vínculo causal entre mundo e fotografia, tornando cada vez mais frágil a ideia da imagem como prova. Diante desse cenário, o projeto propõe um reposicionamento da fotografia: não mais como evidência do real, mas como campo de subjetividade, imaginação e construção simbólica.
A fotografia abstrata surge, assim, como um contraponto crítico às imagens geradas por IA, frequentemente orientadas por padrões estatísticos, estéticas reconhecíveis e visualidades consensuais. Enquanto a inteligência artificial tende a reproduzir o que já foi visto, Terrena reivindica a experiência sensível, o gesto autoral e a ambiguidade como valores centrais. O futuro aqui não é simulado, mas sugerido.
As areias do Katembe funcionam como matéria-prima conceitual desse processo. Seus desenhos efêmeros, moldados pelo tempo e pela natureza, tornam-se base para uma narrativa visual que se afasta da identificação imediata do lugar. O território não é apresentado como paisagem exótica ou documental, mas como espaço simbólico capaz de gerar múltiplas leituras.














