Uma palavra que o Brasil aprendeu a não pronunciar. Latifúndio: a concentração da terra nas mãos de poucos como condição estrutural, não como anomalia. No interior do Paraná, o latifúndio não tem cerca: tem horizonte. A soja e o milho se estendem até onde a vista alcança, atravessados por fios elétricos e rodovias que servem ao escoamento, não à circulação humana.
Este ensaio é um inventário do que o latifúndio produz além da commodity: produz ausência. Ausência de árvore, de pessoa, de cidade, de futuro visível. Fotografado em filme Svema NH 25H: material analógico de origem soviética, áspero e sem concessões. O ensaio trata a paisagem como documento de uma violência que já se normalizou demais para ser chamada pelo nome.

Um caminhão carregado some na névoa. A produção não tem rosto, tem direção.

A estrada que serve ao latifúndio está sempre em construção. O horizonte pertence aos postes.

No centro, uma planta que cresceu sozinha à beira da estrada. Ao fundo, a cidade que acumula o que o campo produz.

Um outdoor vazio em campo colhido. Não há nada a anunciar. A venda já foi feita.

O território avisa: está em obras. Sempre esteve. Para quem, a placa não diz.







