Você não vai ver isso nos anúncios, nas redes sociais. Você vai cruzar com essa realidade diariamente, mas vai aprender a ignorá-la, a torná-la invisível. A fotografia documental tem o poder de trazer à tona aspectos mal disfarçados na aparente normalidade urbana. Dois Portfólios que estão entre os ganhadores gerais do Prêmio Portfólio FotoDoc primam por essa ousadia, por essa coragem, ao tratar da “população em situação de rua”.
“Entre a vida e a morte nas ruas”, de Fabio Teixeira, acompanha um grupo de pessoas que vive nas ruas do Rio de Janeiro recolhendo material descartado para reciclagem. “No Olho da Rua”, de André Valentim, mostra o avesso dessa realidade, seu recalque, ao retratar pessoas que viviam na Fazenda Modelo, lugar na periferia do Rio de Janeiro para onde eram enviadas pessoas retiradas das ruas, que fechou suas portas em 2003.
Nas linhas que seguem, buscaremos entender melhor como e porque os dois trabalhos se destacam e acabaram rendendo a seus autores o troféu de ganhador geral do Prêmio Portfólio FotoDoc, dado a André Valentim em 2023 e a Fabio Teixeira em 2024.

“Eles são os excluídos da globalização, os párias, os marginalizados, os mendigos, os sem teto e hoje ganharam o pomposo título de “pessoas em situação de risco social” ou “população de situação de rua”. São pedintes que encontramos nas ruas. Gente como a gente, que carrega histórias de vida muitas vezes surpreendentes. Uma vila, uma senzala, um campo de concentração, um hospício, um reflexo do que acontece nas ruas da cidade? A Fazenda Modelo foi tudo isso um pouco.” André Valentim

“Pessoas em situação de rua sobrevivem com a reciclagem do lixo doméstico e industrial, essas pessoas trabalham em meio a ratos e são expostos a doenças. Sem nenhum apoio do estado eles sobrevivem dia a dia, enfrentam racismo e todo tipo de preconceito. Realmente eles vivem entre a vida e a morte nas ruas!” Fabio Teixeira
Aproximações temáticas: humanização na fragilidade
Tanto André Valentim quanto Fabio Teixeira voltam suas lentes para pessoas à margem da sociedade. Em No Olho da Rua, Valentim concentra-se nos moradores da Fazenda Modelo, um antigo abrigo na zona oeste do Rio de Janeiro que, ao longo do século XX, chegou a abrigar milhares de pessoas sem teto — e que hoje vive apenas na memória da cidade e nos fragmentos de histórias de vidas que caminham pelas ruas. A série parte da condição dessas pessoas como “invisíveis”, marginalizadas pela vida urbana e pelo discurso oficial, para ressignificá-las como sujeitos de narrativas únicas.
Já em Entre a Vida e a Morte nas Ruas, Fabio Teixeira constrói um relato visual sobre a sobrevivência diária de pessoas em situação de rua do Rio de Janeiro, especialmente aquelas que dependem da coleta de materiais recicláveis para obter renda. O portfólio expõe esse cotidiano como um limite permanente entre existir e não existir, reforçando a fragilidade social que coloca vidas humanas em constante risco.
Ambas as obras resgatam a dimensão humana e empática de indivíduos que são frequentemente reduzidos a categorias sociais abstratas — refugiados, mendigos, “população em situação de risco” — desafiando o espectador a reconhecer rostos e histórias por trás da retórica da exclusão.


Estratégias estéticas: preto e branco, composição e presença
Esteticamente, No Olho da Rua tem uma conexão clara com tradições clássicas da fotografia documental: Valentim trabalha com filme P&B em 35 mm, imprimindo às imagens uma textura que remete tanto à tradição quanto à intemporalidade. Essa escolha formal ajuda a deslocar a percepção do espectador de uma visão superficial da rua para um encontro mais introspectivo e contemplativo com os retratados. O uso da película faz com que a série pareça suspensa fora de um tempo específico, como se as imagens dialogassem tanto com o passado histórico da Fazenda Modelo quanto com o presente urbano.
Em contrapartida, as imagens de Teixeira — embora também enraizadas numa prática documental — dialogam mais diretamente com uma estética de reportagem contemporânea: há uma urgência visual e narrativa que enfatiza a ação e a tensão entre movimento, risco e resistência. Mesmo quando trabalhadas em tonalidades sóbrias e quase monocromáticas, as fotos frequentemente registram gestos, interações e ambientes que colocam o espectador na linha de frente do cotidiano retratado.
Essa diferença de abordagem estética — contemplativa versus confrontacional — cria uma interessante paralaxe visual: em Valentim, a imersão está na relação íntima, lenta e reflexiva com o sujeito; em Teixeira, a câmera acompanha a vida como um evento em constante deslocamento e tensão.


Narrativa e ética documental
Uma das questões mais delicadas em fotografia documental é a ética da representação, especialmente quando se trabalha com grupos vulneráveis. Valentim adota um gesto colaborativo. Seus retratos são construídos em conjunto com os moradores da Fazenda Modelo, que escolhem objetos, roupas e enquadramentos a partir de suas individualidades. Esse aspecto colaborativo reduz hierarquias tradicionais entre fotógrafo e retratado e transforma cada imagem em uma co-criação de imagem e identidade.
Teixeira, por sua vez, encara a rua como um palco de sobrevivência onde o “fora” se torna o “lugar”. Sua postura documental é menos colaborativa e mais narrativa, está mais ancorada na prática do fotojornalismo. A presença do fotógrafo serve para capturar o contínuo deslocar-se entre ação e reação, resistência e desgaste. Mesmo assim, a ênfase em empatia — conforme destacado em entrevistas com o autor — torna evidente uma relação de respeito pelo sujeito fotografado que evita a exploração sensacionalista da dor. Suas imagens negam a identidade para não expor, o que importa é o impacto da cena e não a identificação de quem a viveu.
Essa diferença de ética narrativa — colaborativa versus observacional — gera uma tensão fértil para o leitor: enquanto Valentim prioriza a voz dos retratados, Teixeira privilegia o contexto e a realidade social que circunda essas vidas.


Diálogos e tensões: reflexões a partir da rua
Colocados em paralelo, No Olho da Rua e Entre a Vida e a Morte nas Ruas não apenas documentam realidades duras; eles convidam a uma reflexão mais ampla sobre o papel da fotografia documental no reconhecimento do outro. Há uma tensão explícita entre aproximar-se e observar de longe — uma tensão que se inscreve na própria gênese da palavra “documental”: registro e testemunho. O trabalho de Valentim nos ensina a olhar o sujeito como indivíduo, enquanto Teixeira nos lembra que a vida na rua é um fenômeno coletivo, marcado por forças sociais, econômicas e políticas que ultrapassam a fotografia.
Essa paralaxe entre um olhar que acentua o rosto e outro que acentua o corpo social possibilita uma leitura mais rica da condição humana nas cidades contemporâneas. Ao final, ambos os trabalhos convergem para um ponto crítico: a rua é um espelho do tecido social e a fotografia, quando bem empregada, é uma forma de nos forçar a encarar esse espelho.
No Olho da Rua e Entre a Vida e a Morte nas Ruas são mais que testemunhos visuais de vidas à margem. Eles são convites a uma experiência estética e ética que nos desloca — como uma paralaxe — para uma compreensão mais profunda de como vemos, pensamos e nos relacionamos com aqueles que a sociedade prefere esquecer. Colocados lado a lado, esses portfólios nos desafiam a pensar não apenas em técnica e estética, mas também em responsabilidade, empatia e presença humana diante da lente.









