O retrato como representação do corpo atravessado pelo contexto social. O imaginário reconstruído e o futuro sufocado estão retratados em dois Ensaios ganhadores do Prêmio Portfólio FotoDoc.
“Vaqueirama”, de Ricardo Prado, e “Retratos da Névoa”, de Thiago Soares, partem de universos aparentemente distantes — o sertão nordestino e a experiência urbana da pandemia de Covid‑19 — para construir ensaios que tensionam documento e interpretação, presença e ausência, identidade e estado de transição.
Ao colocá‑los em diálogo, este segundo artigo da série Paralaxe busca observar como dois fotógrafos contemporâneos utilizam o retrato não como mera descrição física, mas como campo simbólico, onde o indivíduo carrega marcas coletivas, históricas e emocionais.


Retrato como permanência e como suspensão
Em “Vaqueirama”, Ricardo Prado volta‑se para a figura do vaqueiro nordestino, personagem recorrente na iconografia brasileira, mas frequentemente cristalizado em imagens folclóricas ou romantizadas. O ensaio rompe com essa tradição ao construir retratos que não se limitam à função documental clássica. Os vaqueiros surgem como figuras densas, quase arquetípicas, inseridas em um espaço que oscila entre o real e o simbólico. O título do trabalho já sugere essa operação: mais do que indivíduos específicos, os retratados integram uma coletividade, uma “vaqueirama” que carrega memória, resistência e identidade cultural.
Já em “Retratos da Névoa”, Thiago Soares parte de um acontecimento traumático recente — a pandemia de Covid‑19 — para elaborar um ensaio sobre os efeitos físicos e subjetivos da doença. Aqui, o retrato não afirma identidade; ao contrário, ele a coloca em suspensão. A névoa que atravessa as imagens atua como metáfora visual dos sintomas persistentes, do isolamento e da dificuldade de retorno à normalidade. Os corpos retratados parecem em estado de transição, como se ainda habitassem um limiar entre presença plena e esgotamento.
Nesse primeiro eixo de comparação, a paralaxe se estabelece entre dois tempos distintos: enquanto “Vaqueirama” fala de permanência, tradição e continuidade histórica, “Retratos da Névoa” lida com ruptura, interrupção e incerteza.


Estratégias estéticas: encenação e atmosfera
As escolhas formais de Ricardo Prado evidenciam um diálogo direto entre documento e ficção. Os retratos são construídos com cuidado compositivo, gestos controlados e uma relação consciente entre fotógrafo e retratado. Não se trata de flagrantes, mas de imagens pensadas, nas quais o corpo, o vestuário e o espaço se organizam como elementos narrativos. Essa encenação sutil não enfraquece o caráter documental, ao contrário, amplia sua potência simbólica, permitindo que o vaqueiro seja visto não apenas como trabalhador rural, mas como signo cultural.
Em “Retratos da Névoa”, a principal estratégia estética está na criação de uma atmosfera visual. A presença constante da névoa, física ou construída, interfere na nitidez, na percepção do espaço e na relação entre figura e fundo. Diferentemente da encenação controlada de “Vaqueirama”, aqui o efeito visual atua como tradução sensorial de uma experiência interna: cansaço, confusão, perda de referências. O retrato se aproxima de um estado psicológico, e a técnica torna‑se meio para expressar aquilo que não é plenamente visível.
Ambos os trabalhos demonstram que, no ensaio contemporâneo, a força do retrato está menos na fidelidade ao real e mais na capacidade de criar camadas de leitura por meio da linguagem fotográfica.


Corpo, identidade e experiência coletiva
Apesar de partirem de universos muito distintos, os dois ensaios convergem ao tratar o corpo como território atravessado por forças externas. Em “Vaqueirama”, o corpo do vaqueiro carrega marcas do trabalho, do clima, da relação histórica com a terra e com o gado. Há uma densidade afirmativa, que inscreve o indivíduo em uma linhagem cultural e social.
Em “Retratos da Névoa”, o corpo aparece fragilizado, afetado por um evento coletivo que ultrapassa qualquer experiência individual. A Covid‑19, nesse contexto, não é apenas uma doença, mas um acontecimento que reorganiza a percepção de si, do tempo e do espaço. O retrato funciona como vestígio de um período em que o contato humano foi interrompido e a própria noção de normalidade se dissolveu.
Essa oposição — corpo como afirmação versus corpo como vulnerabilidade — não estabelece hierarquia entre os trabalhos, mas revela duas faces complementares da condição humana contemporânea.


O retrato como linguagem crítica
Colocados lado a lado, “Vaqueirama” e “Retratos da Névoa” demonstram como o retrato segue sendo uma ferramenta central da fotografia documental e autoral, desde que repensado criticamente. Ambos os fotógrafos recusam a neutralidade e assumem escolhas estéticas claras, conscientes de que toda imagem é uma construção.
A paralaxe entre os dois ensaios surge justamente desse deslocamento de ponto de vista: olhar para o vaqueiro nordestino não como figura exótica, mas como sujeito complexo e olhar para os sobreviventes da pandemia não como estatística, mas como corpos marcados por uma experiência invisível.
Se em um trabalho a imagem constrói permanência e identidade, no outro ela revela suspensão e incerteza. Entre esses dois polos, a fotografia encontra sua força: a capacidade de tornar visível aquilo que atravessa o corpo, a memória e o tempo.








