No contexto do período pós-pandêmico, quando o Brasil ainda respirava os vestígios do isolamento social, Solitude surge como um ensaio fotográfico que documenta a interseção entre a transformação urbana e a introspecção emocional. Percorrendo a pé os trajetos entre a Torre, meu bairro, e o Centro do Recife, construí uma narrativa visual que revela tanto os ecos do confinamento quanto as sutilezas de uma cidade em renovação.
Este projeto apresenta-se como um estudo sobre luz, forma e textura, mas sobretudo como um registro visual das nuances humanas e urbanas nesse momento de transição. Para isso, trabalhei exclusivamente com filme 35mm, utilizando câmeras analógicas Leica M6 e Olympus Trip 35, aliadas a lentes de 55mm e 35mm. As imagens foram capturadas com os filmes Ilford Delta 400 e Fuji Superia 400, escolhidos para reforçar a materialidade da obra e sua atmosfera visual.
A narrativa de Solitude divide-se em dois momentos distintos, refletidos na disposição das salas expositivas. A primeira série, em preto e branco, é marcada por composições de alto contraste e texturas densas. Aqui, a ausência de cor intensifica a sensação de isolamento e melancolia nos espaços urbanos, evocando a introspecção do período pós-pandêmico. A sequência de imagens conduz o espectador por um percurso de solidão, onde a densidade do grão e o uso deliberado das sombras reforçam o impacto emocional das cenas.
No segundo momento, a cor emerge de forma contida, mas significativa. O cromatismo sutil documenta a renovação da cidade e transforma cenas cotidianas em composições poéticas. O uso de uma paleta tonal reduzida, aliado ao jogo de luzes naturais, reflete a transição emocional de melancolia para uma esperança discreta. Reflexos em vitrines, tons outonais e a relação entre figura e fundo tornam-se essenciais para a construção de camadas visuais e narrativas.
A abordagem fotográfica do projeto é intuitiva e fundamentada na tradição da fotografia documental e de rua, baseada na espontaneidade e no tempo decisivo. Pequenos detalhes efêmeros — um transeunte atravessando uma composição refletida, cadeiras vazias à beira de uma calçada ou a incidência da luz dourada ao fim da tarde — conectam o espectador a um espaço onde estética e emoção se entrelaçam.
Mais do que um registro, Solitude se insere na tradição da fotografia como um testemunho visual da resiliência urbana e humana. O projeto convida o espectador a revisitar suas próprias experiências de isolamento e transformação, ao mesmo tempo em que reafirma o papel da fotografia analógica como meio de construção de memória e narrativa.
Solitude propõe, assim, uma experiência estética e documental que extrapola a imagem estática, ressignificando o silêncio, o vazio e a poesia do cotidiano urbano.