Mais de dois mil quilômetros por Cuba, atravessando cidades, estradas precárias, fazendas de fumo e bairros pobres e ambientes turísticos. O que encontrei foi um país de contrastes profundos: filas para o transporte público semelhante ao de gado; confortáveis ônibus intermunicipais, pequenos comércios improvisados nas portas das casas como um recurso à sobrevivência, restaurantes e pousadas charmosos, para bem acomodar o estrangeiro. Presente ainda a gentileza persistente, a simpatia de um povo simples e amigo.
Em Havana, Santiago, Trinidad, Vinhales e em outras cidades, a fome era uma observação que chamava a atenção. Pessoas se aproximavam pedindo comida, sabonete, qualquer coisa. Ainda assim, a maioria seguia seu caminho para o trabalho, como quem insiste em viver apesar das ausências.
Conversei com trabalhadores urbanos, agricultores, comerciantes e um marcante encontro com um lixeiro que, depois de um longo bate papo, me perguntou: Você está gostando de Cuba? Polidamente eu lhe disse que sim, quando então ele me reperguntou: “Você se mudaria para cá, para viver?” A pergunta me desconsertou. Foi mais forte do que qualquer consideração política que havíamos trocado. Nesse dia não consegui mais fotografar.
Nas zonas rurais, encontrei pessoas mais saudáveis e a fome não era tão presente. Carne, ovos, verduras eram de produção própria e de fácil consumo. De outra sorte pude observar a rigidez de um sistema que obriga agricultores a entregar 90% de sua produção ao governo podendo comercializar apenas 10% do que produziam, mas sempre e somente dentro das propriedades que trabalham. Comercializar nas cidades lhes era proibido. Nos grandes centros vi o desalento de quem dependia do Estado e a limitada prosperidade de quem recebia recursos de parentes, já no exterior.
As 15 imagens são uma pequena amostra da minha experiência em Cuba em 2025 e revelam a tensão de um país sujeito à pressão interna e externa e que recai sobre a população: a fome e a simpatia, a precariedade e a esperança, a resistência e a resiliência espelham o atual momento em Cuba. Da sombria primeira foto à garantia da “continuidade”, faz pairar no ar uma indagação que fiz e sem resposta até agora: COMO ASSIM?





















