Dois homens saem de uma fazenda nas cercanias do Parque Indígena do Xingu. São seus donos? Ou dois trabalhadores? Embarcam o rio em um bote motorizado. Podem ser pai e filho. Ou dois desconhecidos. Percorrem incessantemente rio e mata à procura de algo para caçar. Pode ser uma onça. Ou um pássaro a voar. Essa série de fotografias em preto e branco busca retratar essas dicotomias ambulantes e caminhantes. Aqui, o contraste atua como um fio condutor a essa existência onde tudo é dúbio e nada é concreto, e o branco absoluto e opressivo em sua superexposição só é definido e limitado pelo preto que suprime os rostos e expressões desses homens que nada são além de silhuetas em sua jornada rumo a algo.

No ceu acima do rio, cruzado pelos homens, há uma ave. Seria ela aquilo que os homens caçam, se é que caçam algo? Ou somente algo a ser observado?

Algo na vegetação chama a atenção dos homens, que logo a observam. Um deles segura sua peixeira; o outro, prepara sua arma. Aproximam-se da margem. Ainda há algum traço de luz em uma de suas faces.

Os homens chegam à margem. Agora, não há mais qualquer sinal de luz em suas expressões. A escuridão do desconhecido é a única certeza que os aguarda, em contraponto com a claridade do rio que abandonarão.

Já sobre terra firme, um dos homens observa algo além do horizonte. Leva as mãos para retirar seu chapéu, já fazendo o movimento de retirá-lo. Algo, sob o sol e suas últimas luzes, o surpreendeu.

O homem, já sem chapéu, chega ao seu destino. Uma fonte de luz intensa está atrás dele. Seria um farol ou um veículo, terrestre ou extraterreno? O que é aquilo que ele olha? Onde está seu companheiro. Nessa imagem, a única certeza é que, mais potentes que a luz, somente o granulado que da textura à imagem dúbia de um acontecimento nebuloso e obscuro.







