“Até que eu retorne”
Fotografia de Joanna Solamon
Ano: 2022 | Corupá, SC | Fotografia digital
“Com os pés nos trilhos e o coração a quilômetros dali, ela não esperava ninguém…apenas o momento de voltar para si.”
Nesta imagem, tudo parece suspenso: o tempo, o corpo, a memória. “Até que eu retorne” é um retrato da adolescência. Esse intervalo frágil entre o que fomos e o que ainda não sabemos ser. A figura de costas, solitária sobre os trilhos, observa um vagão de madeira corroído pelo tempo. O olhar do espectador, assim como o dela, repousa ali, entre a ferrugem e o silêncio, buscando algum sinal de continuidade.
A fotografia, feita no interior de Santa Catarina, nos conduz por uma atmosfera melancólica, onde os elementos compõem uma narrativa visual de espera e transição. A luz suave do entardecer não apenas colore a cena, mas também sugere o fim de um ciclo ou talvez o início de um retorno. A figura humana, com cabelos roxos e um moletom mostarda, adiciona um contraste sensível à paisagem gasta: juventude contra desgaste, cor contra apagamento, presença contra abandono.
A obra ganha ainda mais força e intimidade por retratar a própria filha da fotógrafa — uma adolescente atravessando um período intenso de descobertas, silêncios densos e transformações invisíveis. Ainda que o tema não seja explicitado, a imagem carrega em si marcas profundas: ela foi registrada no tempo em que a jovem saia, aos poucos, de um mergulho escuro feito de dor calada e tempestades internas. Ao escolher congelar esse instante, a fotógrafa não só criou uma imagem, mas uma forma de cuidado, uma ponte silenciosa entre mãe e filha, entre dor e poesia, entre o que se vive e o que se transforma.
“Até que eu retorne” é, ao mesmo tempo, uma despedida e uma promessa. Um retrato poético de quem não está exatamente perdido, mas também ainda não se encontrou. E é justamente nesse entrelugar, entre fragilidade e coragem, entre sombra e luz, que esta fotografia toca, com delicadeza e profundidade, o que há de mais humano em nós.







