“Se os mundos ficcionais são tão pequenos e ilusoriamente confortáveis, por que não tentar criar mundos ficcionais tão complexos, contraditórios e provocantes quanto o mundo real?” Umberto Eco
Em seu percurso nos últimos 180 anos a fotografia tem sido majoritariamente associada à Santíssima Trindade composta por Luz, Tempo e Espaço. Tudo assim no singular. Dentre as infinitas emanações luminosas que nos chegam às retinas, uma delas é selecionada pelo aparato ótico que o fotógrafo manipula e dela são extraídos um recorte no espaço e uma fração de tempo. Ao contrário das outras formas de expressão, a fotografia é subtrativa, produz uma síntese. As velocidades de registro, a distância focal das objetivas e os suportes – sejam eles películas ou sensores – parecem reiterar que as nossas escolhas sugerem sempre o registro daquele momento decisivo ao qual se referia Cartier-Bresson.
Na contramão dessa tendência, as fluxografias que vêm sendo produzidas por Luiz Baltar desde 2012 se transmutam em imagens múltiplas, em espaços sobrepostos e num tempo que deixa de ser cronológico para assumir seu ethos social, tal qual um retrato fragmentado deste nosso conturbado tempo histórico. Chega a soar curioso quando a gente lembra que foi na Escola de Fotógrafos Populares da Maré, RJ, um renomado centro de formação em fotografia documental, que Baltar deu seus primeiros passos nessa direção, provavelmente impulsionado por um conjunto de variáveis das quais destacaria sua prática profissional como designer, a formação em Belas Artes e o espírito inquieto e contestador que fazem dele um militante em estado puro.
As imagens que compõem a série Fluxos constituem a narrativa de um cronista decidido a registrar as brutais alterações no cenário urbano do Rio de Janeiro, por ocasião de dois megaeventos esportivos que a cidade sediou em 2014 e 2016, respectivamente a Copa do Mundo e as Olimpíadas, ambos concebidos com a promessa de legados sociais que acabaram por se traduzir em ocupação militar e remoções forçadas. É difícil descrever em palavras os relatos que tais fluxografias nos revelam, mas a mensagem está lá por inteiro, em sintonia com os protocolos ficcionais propostos por Umberto Eco em Seis passeios sobre os bosques da ficção (Companhia das Letras, 1994). O problema com o mundo visível, alerta Eco, é que “desde o começo dos tempos os seres humanos vêm se perguntando se há uma mensagem e, em havendo, se essa mensagem faz sentido. Com os universos ficcionais sabemos sem dúvida que têm uma mensagem e que uma entidade autoral está por trás deles como um criador e dentro deles como um conjunto de instruções de leitura”. Acho que essa pode ser uma boa chave para termos acesso aos códigos de leitura que regem o universo autoral de Luiz Baltar.
Dante Gastaldoni














