O Bloco da Lama de Paraty, é uma manifestação carnavalesca irreverente criada por alguns amigos para brincar o carnaval em 1986, e ao mesmo tempo pode ser lido como um potente símbolo das relações entre corpo, natureza e meio ambiente. Tradicionalmente cobertos pela lama e vegetação retiradas dos manguezais da praia de Jabaquara, os foliões transformam esses elementos naturais em fantasia, celebrando o carnaval em Paraty, e nesse ano de 2026 completa 40 anos de existência.
Ao mesmo tempo em que exalta a natureza, o bloco provoca reflexões importantes sobre sua preservação. A lama, que vira brincadeira e arte no carnaval, é a mesma que sustenta a vida nos manguezais, ambientes essenciais para a biodiversidade marinha, para a pesca artesanal e para o equilíbrio climático. Quando o Bloco da Lama ocupa as ruas, ele também chama atenção para a fragilidade desses ecossistemas diante da poluição, do crescimento urbano desordenado e das mudanças climáticas.
O ato de entrar no mangue, cobrir o corpo com a lama e, em seguida, percorrer a região sambando e caminhando coletivamente, somado às cores dos sinalizadores, aos sons musicais e os sons guturais: “UGA UGA HA HA”, tudo isso junto forma uma grande catarse. Esse conjunto de ações nos conecta aos pensamentos enraizados de Nego Bispo, quando ele fala sobre a confluência. Segundo o autor, a confluência é a energia do compartilhar, que nos move aos encontros. Assim, para ele, quando um rio encontra outro rio, eles não deixam de ser rios; ao contrário, ambos se potencializam. Nas palavras do autor:
“Não tenho dúvida de que a confluência é a energia que está nos movendo para o compartilhamento, para o reconhecimento, para o respeito. Um rio não deixa de ser um rio porque conflui com outro rio. Ao contrário, ele passa a ser ele mesmo e com outros rios. Ele se fortalece. Quando a gente confluencia, a gente não deixa de ser a gente. A gente passa a ser a gente e outra gente. A gente rende. A confluência é uma força que rende, que aumenta, que amplia. Essa é a medida.”
O corpo sujo de lama rompe com padrões estéticos e lembra que o ser humano faz parte da natureza, e não está separado dela. A lama não oculta, revela. Revela a alegria crua, o transe coletivo, a liberdade que emerge quando o corpo se mistura ao território, ao calor e a desordem. Assim, o Bloco da Lama não é apenas carnaval: é memória, identidade e também um ato político e ambiental.














