Em 11 de setembro de 2024, o céu de São Paulo ficou completamente amarelo, e o sol foi encoberto por nuvens; pouco tempo depois, começou a chover fuligem: eram as cinzas dos incêndios na Floresta Amazônica, no Pantanal e em diversas áreas em chamas no Estado de São Paulo. Essa precipitação atmosférica veio após semanas de clima seco e ar irrespirável, que fizeram com que a cidade registrasse, durante uma semana, a pior qualidade do ar do mundo.
São Paulo é a maior metrópole da América do Sul, com quase 12 milhões de pessoas vivendo na cidade e um total de 21 milhões de pessoas em uma área altamente urbanizada de 7.900 quilômetros quadrados. 47,54% da população do Estado de São Paulo vive na área urbana da cidade. Onde hoje existe a cidade, antes havia uma vasta Mata Atlântica cobrindo as colinas, que agora estão recobertas pelo concreto dos edifícios. A cidade é atravessada por 800 rios de diferentes tamanhos, que percorrem o território urbano. Desde o início do século XX até poucos anos atrás, a administração municipal passou a canalizar e aterrar os rios, alterando para sempre a geografia da cidade e também seu clima. Devido à presença dos rios e da floresta, São Paulo era conhecida como “a cidade da garoa”. Hoje, por causa da intensa urbanização, da construção desenfreada e do desmatamento, a garoa desapareceu completamente.
Hoje, a cidade de São Paulo e seu estado são considerados a região do território brasileiro que será mais afetada pelas mudanças climáticas, tanto agora quanto no futuro, com previsão de aumento de 6 graus Celsius na temperatura e ondas de calor com duração superior a 150 dias em 2050. Apesar desse futuro incerto e assustador, a administração política tende a ignorar os sinais vindos do meio ambiente, não promovendo a redução das emissões de gases de efeito estufa e, portanto, fazendo quase nada para desenvolver novas formas de sustentabilidade urbana. As mudanças climáticas, mas também a canalização e o aterramento dos rios, somados à diminuição das áreas verdes em razão da construção massiva promovida pela administração municipal em 2023, criaram as condições perfeitas para o aumento das enchentes (que já haviam aumentado 57% em 2022), especialmente nas áreas por onde os rios antes corriam. A desigualdade ambiental entre as regiões da cidade criou diferentes zonas climáticas dentro de uma mesma metrópole, onde os bairros de alta renda são mais verdes e têm temperaturas mais baixas, chegando a haver uma diferença de até 8 graus Celsius entre as áreas ricas e os distritos de baixa renda.
Nesse cenário desafiador, grupos de pessoas, associações e comunidades estão colocando em prática diferentes formas de resiliência, tentando transformar a cidade por conta própria, geralmente sem qualquer apoio das instituições públicas. Para enfrentar a ausência de políticas governamentais de resiliência ambiental, existem associações como a “Missão Ambiental”, que, aproveitando uma brecha na legislação, plantam árvores nativas nas “ilhas verdes” que separam as vias ou em terrenos baldios abandonados pela cidade. Há também grupos de pessoas que criam hortas comunitárias e sociais para cultivar produtos orgânicos, com o objetivo de ensinar outras pessoas ou vender seus produtos por um preço justo à comunidade local. Em um país onde predomina a monocultura, com o uso extensivo de agrotóxicos e fertilizantes químicos, na região metropolitana de São Paulo também existem três assentamentos do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), um movimento social brasileiro voltado para a reforma agrária, que produzem apenas alimentos orgânicos, vendendo-os tanto para cidadãos da capital quanto para escolas públicas e cozinhas solidárias, promovendo a economia de km zero e uma cultura de alimentação saudável.
Por fim, na região metropolitana de São Paulo, existem seis territórios indígenas; um deles é o Pico do Jaraguá, o menor território indígena do Brasil. As comunidades guarani de São Paulo lutam por sua sobrevivência contra a discriminação e a gentrificação, mas também atuam ativamente ensinando seus modos de preservar e manter o meio ambiente; são pequenos agricultores, produtores locais e um verdadeiro banco vivo de sementes para a conservação de sementes nativas (de árvores, hortaliças e cereais), hoje perdidas em razão da modificação genética.
São Paulo está afundando, refém de seu desenvolvimento ultracapitalista e neoliberal, em que o lucro precisa ser gerado independentemente de suas consequências destrutivas. Enquanto 1% da população continua perseguindo o lucro a qualquer custo, as classes de baixa renda lutam para mudar o paradigma, tentando construir um “outro” futuro: uma cidade justa e sustentável, mais verde, mas também socialmente justa, porque, como disse certa vez o ativista brasileiro Chico Mendes, “ecologia sem luta de classes é jardinagem”.





















